Aumento dos casos de Sífilis reforça a importância do tratamento pelo SUS

16 de novembro de 2017

Os casos de sífilis adquirida (em adultos) tiveram aumento de 27,9% de 2015 para 2016 no Brasil. Os dados são do boletim epidemiológico de 2017, divulgados recentemente pelo Ministério da Saúde. Entre as gestantes, o crescimento dos casos foi de 14,7%. As infecções por sífilis congênita (transmitida da mãe para o bebê) subiram 4,7%.

De acordo com os dados apresentados, as causas para o aumento da doença são o desabastecimento de penicilina (medicamento mais eficaz contra a doença) e o aumento dos diagnósticos, com a distribuição de testes rápidos na rede de saúde. Dessa maneira, a tendência é de, com o aumento da testagem, aumentar os casos identificados e permitir ao sistema de saúde tratar essas pessoas e diminuir a transmissão de mãe para filho.

Apesar de essencial para o controle da transmissão vertical da sífilis, a penicilina benzatina apresenta, desde 2014, um quadro de desabastecimento em diversos países devido à falta de matéria-prima para a produção. Segundo o Ministério da Saúde, apesar de a responsabilidade pela compra do medicamento ser de estados e municípios, em 2016, o governo brasileiro concentrou a aquisição em caráter emergencial para o tratamento de grávidas e seus parceiros.

Ainda, o Ministério da Saúde afirma que também aumentou o valor máximo de compra do medicamento, que antes era inferior ao custo de produção. Com isso, o problema do abastecimento foi resolvido, inclusive com produção nacional.

Sífilis congênita

Todos os tipos de sífilis são de notificação obrigatória no país há pelo menos cinco anos. Entre 2010 e 2016, a taxa de incidência de sífilis congênita e a taxa de detecção de sífilis em gestantes aumentaram cerca de três vezes, passando, respectivamente, de 2,4 para 6,8 por mil nascidos vivos e de 3,5 para 12,4 casos por cada mil nascidos vivos. A sífilis adquirida, que teve sua notificação compulsória implantada em 2010, teve sua taxa de detecção aumentada de 2 para 42,5 casos por 100 mil habitantes.

Para a diretora do Departamento de Vigilância, Prevenção e Controle das Doenças Sexualmente Transmissíveis, do HIV/Aids e das Hepatites Virais, Adele Benzaken, o aumento nos índices significa uma melhora na identificação da doença. “Essa questão de aumento quer dizer que a cobertura da testagem está aumentando, estamos conseguindo chamar os parceiros das gestantes. Se estamos testando as pessoas, estamos tratando as gestantes e evitando a sífilis congênita”, declarou.

O novo boletim aponta que 37% das mulheres grávidas com sífilis conseguiram realizar o diagnóstico precocemente. A identificação ainda no primeiro trimestre da gestação e o tratamento adequado impedem a transmissão da doença da mãe para o bebê. Entretanto, segundo Adele, muitas mulheres iniciam o pré-natal tardiamente, então há um prejuízo nesse diagnóstico.

Para alcançar a meta de eliminação da mortalidade por sífilis congênita estabelecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS), o Brasil deve reduzir da taxa atual de 6,8 por mil nascidos vivos para um índice menor ou igual a 0,5 por mil. “Isso é possível em um curto prazo, porque a sífilis é facilmente detectada e facilmente tratada. Tendo o teste rápido e tendo a penicilina, é possível alcançar a eliminação”, disse Adele.

Segundo o boletim epidemiológico, apenas os estados de Pernambuco, Tocantins, Ceará, Sergipe, Piauí e Rio Grande do Norte apresentam taxas de incidência de sífilis congênita mais elevadas que as taxas de detecção da doença em gestantes, o que remete a possíveis deficiências no diagnóstico precoce e notificação equivocada dos casos de grávidas.

Diagnóstico

Para acesso ao diagnóstico de sífilis, o usuário do Sistema Único de Saúde (SUS) deve ser orientado a procurar uma UBS para a realização de exames de sangue (VDRL), do teste rápido, e raspado nas lesões típicas na pele e mucosas disseminadas quando presentes. Casos de exames não reagentes para a doença e histórico de exposição à sífilis, recomenda-se a realização de uma nova testagem após 30 dias, devido ao período de janela imunológica.

O processo de implantação do teste rápido de sífilis na Atenção Básica, teve início no ano de 2016, com objetivo de ampliar o acesso da população ao diagnóstico da doença. Atualmente, em Minas Gerais, das 5.450 Unidades Básicas de Saúde existentes, 1.180 realizam o teste rápido. Especificamente para a gestante, a detecção precoce da sífilis é essencial para evitar a transmissão vertical e consequentes malformações no feto. Se não tratada a tempo, a sífilis pode comprometer o sistema nervoso central, o sistema cardiovascular, além de órgãos como olhos, pele e ossos.

Tratamento da doença

A penicilina é considerada o medicamento eficaz para tratamento da sífilis, em qualquer fase da doença e está disponível à população nas Unidades Básicas de Saúde. De acordo com a coordenadora de Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST/AIDS) e Hepatites Virais da Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais, Jordana Costa Lima, a penicilina é uma medicação segura, sendo a única que atravessa a placenta e chega ao bebê. “A doença tem cura, mas pode vir a reincidir, caso a pessoa tenha um novo contato com a bactéria, através de contato sexual sem preservativo. Por isso a importância do casal realizar os exames para diagnóstico e, em caso de resultado positivo, ambos realizarem o tratamento”, explicou Jordana.

Atualmente, os enfermeiros das Unidades Básicas de Saúde, sob protocolo, poderão prescrever a penicilina. Isso garante que a gestante, quando chega à Atenção Primária para realizar o pré-natal, seja atendida por um profissional de enfermagem, que irá realizar o teste rápido. Quando identificada a doença na gestante, o tratamento é imediatamente iniciado juntamente com as parcerias sexuais.

 

Por Andreia Verdélio / Ana Paula Brum / Agência Brasil / Adaptação